segunda-feira, 9 de julho de 2012

A senhora de olhar distante se acostava na porteira com a esperança de que um dia pudesse vê-lo outra vez, como quando no riacho, sob a luz da lua, dois amantes encostados num pé de jabuticaba se amaram a noite toda. Sem precisar contar ate três, as lembranças eram lançadas na sua frente, como cenas de uma estória de época ou um trecho bonito de um livro. Mas não, não pode ela sofrer outra vez, já que deste seu amante não ouvira cantar, nem mesmo nos sonhos ele pode voltar. Quisera ela poder lhe dizer que tudo o que sentia era apenas prazer. Quisera ele poder olhar firmemente naqueles olhos pretos como a noite que os uniu e soprar palavras jamais mencionadas. Ou quem sabe, apenas acalentar esse coração pulsante... Francamente sua vontade era naufragar nesse sorriso aparentemente tímido. Com isso se foi se foi e está indo... A chuva veio e parou. A lembrança contínua está lá, rodeando-a como colcheias barrocas. Sempre reconfortante de que tudo fora mencionado em teus pensamentos e que cada detalhe ia lhe satisfazendo; até o sinal chiado do radio... (xiiuu.. xiiuuu... xiiuuu...) lhe trazer por fim a escassez do ultimo punhado de esperança. Pois apesar da dificuldade de compreensão a noticia era clara... Em tempos de guerra, os mais bravos homens partiram e seu amante se eternizaria apenas em ventos que trouxessem seu cheiro, em folhas que lembrassem sua pisada e em tempos que levassem a dor do adeus sem despedida.

— Bruna Xavier (Colaboração Larisse Teixeira)

Essência.

A casa era antiga, de uma madeira rústica que fazia referencia aos moradores. Uma senhora e um senhor com idades e gostos um tanto quanto apurados. Ali o tempo passava suave, as pisadas na madrugada eram macias e as risadas... Eram de se deliciar. Naquele espaço não cabiam a hipocrisia nem o constrangimento, pois se nada tinham a dizer se calavam. Se algo os incomodava, bastava uma careta. E as caretas eram tão ridiculamente agressivas que de imediato se caia na risada outra vez. É que nessa casa não existia a busca incessante pela solução de problemas que nem ao menos existiam. A vida era leve. Sabia-se plantar na horta, sabia-se cozinhar, sabia-se tomar vinho, sabia-se construir mais casas daquelas, só não sabiam cantar. Pois bem, tinham aulas matinais com pássaros. Professores naturais, na mais pura essência.  E se não cantavam, assobiavam. A casa era num canto qualquer desse mundão.  Mas a solidão só existia se fosse a dois, pois nem assim se largavam. Infelizmente hoje, anos depois, nem mesmo a casa ficou. A madeira antiga ainda deve existir, mas a essência dessa casa ficou nos corações desse casal de alma pura. 

— Bruna Xavier